agosto

"não fala do que eu deveria ser pra ser alguém mais feliz... [l. hermanos]"

...sabe...
não espero palavras finais. em verdade já não espero qualquer palavra.
entenda apenas que dentro de mim o silêncio revela o fardo de uma história. história que não escrevi nem tão pouco pude pontuar com um final feliz.
história de tudo quanto se moveu ao meu redor e eu , estática, observei de nós muitas partidas.
nesta história vejo um cenário que perpetua a prática desajeitada de esperar por agosto e o meu terrível gosto por reformas.
foi tanta tinta fresca...  em azul, amarelo, vermelho e laranja.
tentei insistentemente refrescar de novas lembranças tudo aquilo que doeu e doeu muito.
mas você certamente não viu, não reconheceu e não reconheceria ainda hoje qualquer cor. 
na sua brincadeira de esconder optou pelo xadrez a camuflar portas e janelas,
fez o céu cheio de estrelas que quase ruíram sobre tua cabeça corroída de opaco...
eu, do lado de fora, forcei em vão a maçaneta trancada num xeque-mate
querendo crer ... a gosto de deus.
dentro do teu xadrez você nunca observou a gota de suor salgado em lágrima  que evaporava a cada tentativa frustrada de te envolver com uma manta quentinha de boas lembranças.
eu, na minha ingenuidade guerreira, acreditei que poderia fazer brilhar teu sono em verde celeste.
mas não... a mim não foi concedida a escolha da cor,
a mim não foi concedida qualquer escolha que pudesse colorir o teu xadrez...
afinal quem sou eu para alterar com a reforma de concreto o agosto de deus?
nem pense que faço desta hora o meu drama!
são apenas palavras cravadas no suor em lágrima que escorre da mão
tentando afastar o desgosto de ver de nós uma outra partida.
sei que não há perdedores.
há os que ficam e observam estáticos o movimento do grande xadrez
há os que partem em busca de uma nova jogada em xadrez
eu, inerte, parto um rearranjo novo de mobilha para sala,
parto a lembrança com tinta seca 
e por saber serem suas todas a escolhas,
parto a reinvenção de um recanto para meu guerreiro.
eis o que sinto neste agosto:
um novo parto dolorido de reformas,
de tintas secas que não brilham o verde celeste
nem a gosto de deus.