sobras

 

[pic by bneubern]
 [cala essa boca que isso é coisa pouca perto do que passei.. l. hermanos]
 
 
eu estava ali, estática.
procurava o que restou da  história,
ou da ausência dela
(ainda não tinha certeza).
como começar a narrativa?
nunca fui boa nisso.
preferia intuir frases num movimento involuntário.
só assim conseguia revelar um contexto
que nem mesma eu definia antes da escrita.
mas a intuição parecia escapar pelas pontas dos dedos
e dentro de mim o vazio se expandia em conclusões subversivas.
não era por falta de inspiração,
mas pelo ponto final que encerrou o discurso.
embora em algum lugar do passado
tenha experimentado razão semelhante,
não havia como construir outro contorno do  paradoxo funcional.
a verdade é que não havia  sequer um contorno a ser delineado.
nem tão pouco um rompante de desilusão.
e  não era bom não ter desilusão.
a desilusão ao menos caberia em melhores formatações poéticas.
mas  conclusões subversivas?
eram a dose indigesta de uma lembrança turva.
da lembrança esfumaçada pelo desamor,
em sua modalidade mais rasa de esvaziamento
e do desperdício inconsequente de todas as sobras.
sobras da história ou ausência dela
(ainda não tinha certeza)
e eu ali, estática.
como terminar a narrativa?