do meu jeito

[pic by bneubern]
 
 "se o mundo é mesmo parecido com o que vejo,
prefiro acreditar no mundo do meu jeito..."
[r. russo]
 
 
 
"prefiro acreditar no mundo do meu jeito"
porque do meu jeito as relações naturalmente germinam
e fazem da vida terra fértil sempre.
 
porque do meu jeito as pessoas não são minhas
elas permanecem em mim
e por isso são bem vindas.
 
porque do meu jeito não se pode desistir do outro
afinal o outro também  me compõe em essência
e não há como desistir da minha própria essência.
 
porque do meu jeito não é preciso qualquer ciranda de pedra
basta que eu reconheça no meu elo mais fraco a fortaleza do laço 
de sangue ou não
 
porque do meu jeito laços não significam nós
e exatamente por isso não podem ser cegos
nem tão pouco desatados.
 
porque do meu jeito a convivência é uma necessidade, física ou não
é condição de  troca pacífica, construtiva, harmoniosa
entre pessoas que estão perto ou não.
 
porque do meu jeito o amor não é nem pode ser unidade de medida
ele é porque é, porque sim,
é um fato contra o  qual não há argumentos, nem provas ou testes.
 
porque do meu jeito mesmo que o mundo se revista de toda aparência
faço dele o que quero e normalmente quero porque sinto
sinto que gosto, que desejo, que amo
 
porque do meu jeito 
posso voar e ir a qualquer lugar
mesmo quando meus pés estão no chão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 


sobras

 

[pic by bneubern]
 [cala essa boca que isso é coisa pouca perto do que passei.. l. hermanos]
 
 
eu estava ali, estática.
procurava o que restou da  história,
ou da ausência dela
(ainda não tinha certeza).
como começar a narrativa?
nunca fui boa nisso.
preferia intuir frases num movimento involuntário.
só assim conseguia revelar um contexto
que nem mesma eu definia antes da escrita.
mas a intuição parecia escapar pelas pontas dos dedos
e dentro de mim o vazio se expandia em conclusões subversivas.
não era por falta de inspiração,
mas pelo ponto final que encerrou o discurso.
embora em algum lugar do passado
tenha experimentado razão semelhante,
não havia como construir outro contorno do  paradoxo funcional.
a verdade é que não havia  sequer um contorno a ser delineado.
nem tão pouco um rompante de desilusão.
e  não era bom não ter desilusão.
a desilusão ao menos caberia em melhores formatações poéticas.
mas  conclusões subversivas?
eram a dose indigesta de uma lembrança turva.
da lembrança esfumaçada pelo desamor,
em sua modalidade mais rasa de esvaziamento
e do desperdício inconsequente de todas as sobras.
sobras da história ou ausência dela
(ainda não tinha certeza)
e eu ali, estática.
como terminar a narrativa?
















 
 




golpes de pincel

[pic by bneubern]



 "sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar
e foi você quem desviou
com golpes de pincel"
[l. Hermanos]

as palavras têm poder para arrancar sorrisos, lágrimas,
para escancarar sentimentos e insinuar segredos.
elas unem, separam,
levam daqui para lá o que há em toda intenção, boa ou não.
dai a importância de cuidar do que é dito.
em todos os sentidos possíveis.
"tomar conta" daquilo que dizemos ou recebemos por meio de cada sílaba.
se edifica, que seja cultivado porque é como um combustivo pra alma.
fortalece elos, aproxima mãos, corações...
esquenta o rosto como se fosse chá quente num dia frio.
se destrutivas... bem...
por vezes jogo fora...
por outras deixo num canto esquecido.
como aquela gaveta em que abandonamos coisas inúteis
mas que por alguma intuição absurda
sabemos que um dia pode ser a hora de ir lá dar uma espiada.
não pense com isso que estimulo o rancor.
nem tão pouco sugiro trancafiar insultos ou agressões.
isso definitivamente faz mal,
cheira mal porque apodrece a alma.
me refiro ao exercício de zelar pelo bem,
ainda que para isso tenhamos que
vez ou outra
abrir a gaveta torta das coisas inúteis.
porque se a palavra não nos foi útil uma vez,
que ao menos traga algum discernimento.
faz parte do contínuo trabalho de reciclar desafetos,
de calibrar olhos e ouvidos
para o que nos é doce, leve.
no tom certo para construir novos caminhos,
novos destinos trilhados pela escolha de mudar o rumo,
o "rumo da prosa".
e é tão fácil reconhecer a palavra bem vinda
é tão fácil dizer a palavra bem-dita
basta observar o canto da boca
brotou algum sorriso?
pois é...
eis o maior sinal:
a gratidão.


 












entre uísques, cigarros e orações

[pic by bneubern]

nesta mesma ordem



havia tanta preocupação,
que  os  gritos em  segundas intenções
não traduziam o  não-dito.
ai vieram  doses bem servidas do uísque,
com duas pedras da vontade-de-parar-de-fumar.
promessas,
maldições
e dietas.
liquidificador de cazuza e fressato.

julgado!
justiça...
babaca!
o grito vinha em memória visceral...
babaca!!!
[no singular só pra provocar]
velocímetro a mais de cem
e  cazuza com suas putas-burguesas- politizadas,
nascidas de mães tão felizes.
ou não.
silêncio!
maldição parida dessa ausência de milagres
ou do acaso no paraíso,
sei lá...



pausa 'pra' menina caminhar em algodão.
...
antimatéria!


mais uma tentativa desses amores "tan tan"
a-nova-última-oração.
não é tão simples assim...
porque você é uísque
enquanto o derrame é de vinho
não havia volta,
nem vendaval,
ou espera.
definitivamente?
"eu não sei mais nada "
mesmo que o nada
seja tão eu.

[continua]
...




ps:
pra essas noites em que um vício só não basta e
dó com baixo dó,
sol com baixo em si,
lá com baixo em lá,
lá com baixo em sol...







vicissitudes ao acaso

[pic by bneubern]
" vinha perto a madrugada quando em ânsias minha amada nos meus braços desmaiou"
c.das neves
 
desde a infância algumas palavras me causavam encantamento.
seus sons me remetiam a um universo de possibilidades, um convite para o vôo sem plano de pouso.
algumas especificamente ecoaram durante anos em minha mente,
como sons que se propagavam por um universo de pensamentos por vezes desconexos.
minha estranha preferência por palavras que não se comportavam nas limitações sórdidas do aurélio, me colocou muitas vezes em discussões intermináveis.
as pessoas costumam se sentir desafiadas quando as significâncias do que efetivamente querem dizer são encontradas no conjunto de motivos precursor ao discurso.
é como despir de voz a alma e invadir essa coisa toda que aprendemos a conter desde sempre.
o fato é que nas discussões intermináveis pela desnudez da alma,  as forças do acaso  me impuseram um movimento contínuo desses significados divagados em motivos distintos.
ao ponto de atingirem acontecimentos guardados num canto qualquer da memória.
nesse fenômeno quase metafísico, inventei de perguntar:
seriam vicissitudes ao acaso ou o próprio acaso enquanto revés?
na obviedade tola "aureliana" alguns poderiam concluir que a pergunta é a materialização de mais um pensamento desconexo.
mas com  minutos a mais de reflexão, é possível sentir alguns dos motivos precursores que desmistificaram acontecimentos falsamente protegidos pelo ponteiro do relógio.
há um lugar seguro para as lembranças que construímos por meio da extração de tantos significados?
cazuza mesmo relatou que muitos de nossos heróis morreram de overdose.
nesse caso, especificamente, o acaso acabou agindo como revés.
tudo bem que a morte é o único evento certo da vida, mas a morte de um herói, veja bem, não vemos todos os dias por ai.
é praticamente um golpe de azar.
um revés que por acaso assaltou alguma convicção não tão sólida assim,
o que por si só se opõe à construção do próprio termo "convicção".
por um outro lado alguns precisam morrer para se tornarem heróis.
dai entendo melhor  renato russo quando por intermináveis sete minutos (ou mais) narrou toda trajetória de joão de santo cristo.
ele queria construir um herói e para isso semeou possibilidades de significados.
nós os extraímos  por algum motivo. 
materializamos um herói e o assumimos em nossas vidas.
ao ponto de corrermos para o cinema torcendo para que o diretor tenha mudado o final da história
e que agora já se transformou  numa narrativa estranhamente resumida com mais de sessenta minutos.
nesse caso, especificamente, são vicissitudes ao acaso.
somos nós mesmos a sucessão dos acontecimentos significados por um motivo qualquer.
como joão de santo cristo.
e o que é melhor?
vicissitudes ao acaso ou o acaso enquanto revés?
o melhor é perguntar sempre.
para tornar dinâmica toda lembrança que não pode, nem deve ser protegida falsamente pelo ponteiro do relógio.
só assim extraímos quantos significados forem necessários
construindo cuidadosamente motivos
que nunca serão tão sólidos quanto uma convicção,
nem tão insólitos quanto uma ilusão.










depois de ana



[... diz quem é você pra me dizer pra não voar, se é você só ar e eu vendaval? inspirado l. fressato]
deixa eu invadir tua solidão?
o que quero dizer é que pessoas que conseguem racionalizar toda subjetividade,
sofrem pela ausência dessas percepções que nos são tão preciosas.
não, não me refiro  ao desacelerar do passo pra chegar onde não sabemos bem.
me refiro às bolhas de sabão suspensas entre salas, num entardecer qualquer.
não, não são aquelas de sem ana blues, ainda que a escolha do blues seja a mais acertada.
me refiro àquelas entre cem anas, mais infindas perguntas desses afetos tão ausentes num mundo de concreto.
ou seriam desafetos?
o fato é que entre e caios e anas, reside todo caos
e a solidão acaba sendo o refúgio da alma,
disfarçada pelas tais bolhas de sabão suspensas...
e é preciso ficar assim...
suspensa sobre o mundo.
do contrário a intensidade dessa coisa toda,
essencial à própria existência,
serviria como a desculpa do tolo.
entende o que quero dizer?
não?!
eu explico:
nesse momento invado tua solidão
e você se protege dela
e fica suspensa com essa sensação de
tentar-respirar-um-ar-que--se-ausenta.
é sobre isso que falo.
porque somente as pessoas com
essa-tal-marca-ana
podem entender o que as palavras efetivamente querem dizer...
ainda quando são caladas pela preciosidade de um olhar.
olhar sobre o mundo...
olhar sobre o outro...
e sobre as cem anas que dentre todas,
uma piscou sutilmente para retardar a finitude de um momento qualquer.
é como digo:
- depois de ana minhas aflições nunca mais foram as mesmas...
porque de fato entre caios e anas há um tom de caos
e no caos...
nossas bolhas de sabão suspensas em solidão...






menos eu

[pic by bneubern]
 
365, 12, 4 ,9, menos eu. esse é o balanço de toda aquela racionalidade. aqui, agora, neste lugar, penso com clareza a respeito de tudo aquilo. concluo sobre a necessidade que hoje me parece obvia.
afinal se assim não tivesse sido qual seria o gosto hoje de ver, sentir, respirar, esse tal instante que chamamos de felicidade por pura ausência de outra definição melhor?
e assim me permito esbarrar em algum capricho do acaso:
 
"Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".
por Caio Fernando Abreu

Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.

* Caio Fernando Abreu"