sobre todas as folhas...

"Eu já sei caminhar em tantas nuvens
E posso visitar de vez em quando o chão
Do alto do parque, por cima das árvores eu vejo você".
[a.b.mais bonita da cidade]
[pic by bneubern]
 



você me conta sobre as árvores  de outono

sobre as folhas que te despiram de toda aparência.

você me fala sobre o dourado de tua metamorfose

e sobre tudo aquilo que te enferruja em metal menos nobre.

você revela teus pedaços...

teus cacos em folhas.

entre pensamentos mostra as tristezas e alegrias que compõe tuas dores.

de fato acho belo assim!

porque a essência das coisas  é revelada na plenitude do ser.

do simplesmente ser

e nisso esta  toda virtude.

graças aos teus outonos

te vejo livre em tantas outras estações

te vejo transformada em um instante de infinito

como ocorre agora...

neste ramo escrito  em nome de cada folha despida.

a tua nudez revela o tempo que não se tem mais para guardar recordações

mas sim novas cores, perfumes, tons

além de toda aquela esperança que te fará brotar em outros sorrisos.

sei que antes  de bater o vento você já pensava em  voar

e transformar em lar

qualquer lugar que os teus pés pudessem alcançar.


de fato
acho belo assim!

porque...

"você já sabe caminhar em tantas nuvens
e pode visitar de vez em quando o chão...

no alto do parque,
por cima das árvores

eu vejo você..."





aquele menino





[o tempo engatinhar do jeito que eu sempre quis,
se não for devagar que ao menos seja eterno assim... m.c.a.]
aquele era o menino.
não era assim como os outros mas também não deixava de ser...
era normal.
não, não era!
afinal  um garoto normal nunca me envolveria daquela maneira.
não se tratava de uma paixão enlouquecedora não [risos],
mas aquele menino era de fato apaixonante.
como não se apaixonar por um cantinho verde de olhos que  sorriam  pra mim indicando que ele estava lá ?
lá na tristeza,
lá na alegria,
[e olha que nem era um casamento]
lá no problema e na solução.
bom, a solução por vezes foi o copo de cerveja gelado
e a certeza que me acompanharia até o ultimo gole.
se pudesse roubaria meu ultimo gole que eu sei [risos],
mas ele estava lá e isso era o que me valia.
como valia!
valia tanto que sem pensar entreguei todas minhas senhas
afinal não havia segredos entre nós.
o trato era simples:
ele tinha minhas senhas e eu um tantinho de suas travessuras
e como resultado nossas intermináveis  gargalhadas.
aquele também era menino das  viagens parceladas
sim, porque ele sempre foi uma parcela valiosa da minha alegria,
crédito este que eu nunca abriria mão.
com aquele menino os carnavais nunca tinham fim
e toda páscoa era também um novo e bem vindo ano,
assim a gente construía um conceito só nosso de felicidade.
quando digo só nosso, é porque poucas pessoas compreenderiam que a felicidade está num canto de sofá...
bastava saber que aquele canto era do menino e pronto,
ele tratava de preencher todo o resto.
pois é...
aquele menino  me fez acreditar que de fato os sonhos não envelhecem
afinal aquele menino é capaz de tornar todo  tempo eterno assim
pra mim
...
pra mim
...












outra carta

[pic by bneubern]
"... às vezes é um instante, a tarde faz silêncio, o vento sopra a meu favor
às vezes eu pressinto e é como uma saudade, de um tempo que ainda não passou
me traz o seu sossego, atrasa o meu relógio, acalma a minha pressa...
me dá sua palavra, sussurre em meu ouvido
só o que me interessa"


[lenine].



à remetente certa

"apareceu um portador..."

não precisa se desculpar pela demora e aproveite para dizer ao velho chico que ele continua a par de tudo que se passa.
sei  bem que silenciadores estão por toda parte e além de transformarem chuvas em tempestades ensurdecedoras, insistem em contaminar nossa terra tão fértil com as tais mesmices cotidianas...
de fato acho graça que você insista nessa mania de secar até mesmo o que é naturalmente árido. exatamente por isso te expliquei sobre a ausência de rumo das palavras.
tinha esperanças que você deixasse de se perturbar com os tantos outros que te assolam, já que tuas certezas incontestáveis sempre te serviram como escudo.
preciso dizer que teu vício não é pelo verbo necessariamente, mas pela tentativa incansável de mudar o mundo que te cerca.
não, não, não pense que te critico por isso, apenas constato que você continua querendo colorir todas as tonalidades cinzas que sempre te incomodaram muito.
sobre nosso menino guerreiro e teus estudos filosóficos  [risos]...   você esperava mesmo dissertar cientificamente sobre o danado?
minha cara... nós bem sabemos que entre lavadeiras e janelas repousa o encantamento de qualquer contemplação. 
não se trata de uma constatação racional,  mas de um suspiro sutil que assalta em uma tarde qualquer e nos carrega por madrugadas insones...
o que quero te dizer é que para alguém que reproduz com tanta exatidão a virada de todas as páginas, seria inconcebível ver tua criança se transformar no adulto racional que muitas vezes insiste em te visitar.
eu sei, eu sei, ainda não perdi a mania de achar graça nessas retóricas filosóficas que te tornam tão especial...
mas é que pelo humor de nossos diálogos aceitamos não chegar à conclusão alguma pelo simples prazer de sorrirmos sempre.
lembra daquela despedida? sorrimos em paz entre ventos de acalanto. sabíamos que a pressa de voltar seria responsável pelos abraços que nos envolveriam em tantas outras dimensões.
por isso passo a te responder:
não, eu não duvido, nem torno estático o naturalmente dinâmico.
mas aceite que é a saudade dessa ausência que nos movimenta para o reencontro. para fazer vingar a mesma flor.
se carreguei todo ar comigo, foi para manter meu transporte de retorno, minha passagem de volta... assim flutuo entre ares até um repouso que nos sirva na exata medida de toda ausência.
e qual seria a exata medida?
na ópera do malandro compreendi ser a metade afastada, exilada,  amputada e por isso tanta urgência na prece de joão que clama por regresso...
no samba de cubano cadenciei um receio qualquer para acalmar  toda pressa...
como pude demonstrar minha querida, ao contrário de nossas discussões inconclusivas, sigo em frente pelo há de vir.
ouço a voz da intuição na curva do universo.
provoco a razão com a fórmula do acaso e isso definitivamente é o que me interessa.
como tantos marcelos acredito que se não é pra perceber esse milagre, caberia ao amor o "não dá".
eu escolho alcance da promessa, assim me parto entre milagres.
eles sempre me serviram como argumento de esperança para o que não pode, nem deve ser racionalmente explicado...
aliás esse é o caso do nosso menino guerreiro da arma que é ligeira e forte...
o que quero  dizer minha cara é que de fato tudo que nos toma o pensamento e nos arrebata entre segredos é digno de ser chamado amor...
mas para ser amor... preste atenção... eu disse ser... você é amor?
para ser o amor é preciso viver entre antagonismos e se desdobrar em tantas faces quanto forem necessárias .
transformar a saudade de uma ausência na condição única de estar entre o agora e o infinito.
é  permitir na lógica do tempo todo o caos de pensamento, ser a paz na solidão...
torno a dizer: eu não duvido, nem tomo como estático o que é naturalmente dinâmico.
mas para fazer vingar a mesma flor, para ser amor e eu disse ser...
"é natural que seja assim você ai e eu aqui exatamente aqui"

"do mais o francis aproveita pra também mandar lembranças"

com saudades,

ass: ausência tua




liberdade

[pic by bneubern]


"perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
daqui não, eu vivo a vida na ilusão
entre o chão e os ares, vou sonhando em outros ares
vou fingindo ser o que já sou, fingindo ser o que já sou
mesmo sem me libertar, eu vou
é, deus, parece que vai ser nós dois até o final
eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro...
seguro...
 de que vale ser aqui?
de que vale ser aqui?
 onde a vida é de sonhar
liberdade" 
[m. camelo]



fingindo ser o que eu já sou
entre o chão e os ares




 


senhor piedade

 
[pic by bneubern]
 
"como um fantasma que se refugia na solidão da natureza morta, por trás dos ermos túmulos, um dia, eu fui refugiar-me à tua porta!
fazia frio e o frio que fazia não era esse que a carne nos conforta... cortava assim como em carniçaria o aço das facas incisivas corta! mas tu não vieste ver minha desgraça! e eu saí, como quem tudo repele, velho caixão a carregar destroços ...
levando apenas na tumba carcaça, o pergaminho singular da pele e o chocalho fatídico dos ossos"
[augusto dos anjos]


sob o pretexto doente de assumir algum caráter,
há os que entre nós perpetuam a deslealdade num julgamento infundado.
se apropriam indevidamente do desabafo de um inocente
para alimentarem seu mundo negro e cheio de descontentamento .
descontentamento pelo que simplesmente não conseguiram ser,
ou pior,
pelo que acreditam ser.
quanta mesquinhez meu deus...
quanta pobreza de espírito que acorrenta esses pobres à condenação perpétua da infelicidade,
ou ao martírio solitário de serem eternos guardiões das tantas sopas de letrinhas.
certo dia me contaram sobre o vampirismo desses tais
e sobre os movimentos quase maléficos dos sanguinários
que como insetos ficam no entorno de grandes ideias...
limitados na sordidez de anseios que nunca ousariam revelar
regurgitam insatisfação só de ver a felicidade alheia reinando sobre o medo que os acorrenta
quanta mesquinhez meu deus...
quanta ausência de espírito desses pobres que nem sabem bem onde estão ou onde querem ir...
desejam apenas que o outro não vá além, ou melhor,
que o outro compartilhe a experiência dispensável
de submergir em dores inventadas como amuleto de azar.
e que porção nos cabe de responsabilidade?

"vamos pedir piedade, senhor piedade,

para os miseráveis
que vagam pelo mundo derrotados
para essas sementes mal plantadas
que já nascem com cara de abortadas
piedade para essas pessoas bem pequenas
remoendo pequenos problemas
querendo sempre aquilo que não tem
pra quem vê a luz mas não ilumina suas mini certezas
vive contando dinheiro e não muda quando é lua cheia...
pra quem não sabe amar...
fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos
como varizes que vão aumentando
como insetos em volta da lâmpada...
vamos pedir piedade...
pra essa gente covarde"






sobre segredos

[pic by bneubern]

" o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer..."
[cazuza]



os segredos, minha cara, são deleites inimagináveis
sobre os quais criamos o mundo que nos caiba a exatidão de todo desconforto.
e é engraçado pensar que o mundo que tanto ofusca todo deleite ,
se restringe à escuridão da tal caverna que intitulamos inocentemente de "vida real".
se pelo silêncio das palavras ditas num segredo qualquer,
escurecemos um pouco mais nossa visão sobre as outras tantas coisas que nos cercam,
digo com a mesma franqueza de qualquer criança:
olhemos ao redor.
vivifiquemos o que no plano metafísico das palavras conturbadas faz reluzir
o tom mágico de cada suspiro....
suspiro pelo desconforto de outrora
suspiro pela pergunta respondida ou
pelo intervalo de um interrogatório.
não faça essa cara de surpresa ou de quem não entende o tom da letra...
-risos-
só quero te dizer que o segredo de todo deleite é o meio sorriso que nos assalta
numa madrugada qualquer
e nos assalta só de lembrar...
pense nisso e se delicie no segredo nem tão revelado,
mas que por um palpite bobo acreditamos ser real.
será que é real?
-risos-
queremos crer que sim.

essencialidades




[pic by bneubern]
 
 
 
 
Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo

E o mundo todo se perdeu...
[m.rita]







 
 ao som de:
 
 


 
como disseram certa vez: "o essencial é invisível aos olhos" ...grande Antoine!
de fato só se pode ver bem com o coração
nisto reside todo deleite de um mero devaneio ou de um radiante encantamento.
o objetivo é a gratidão...
como não sentir gratidão quando por acaso é relevada  a obviedade em semelhança?
e sabemos que da semelhança ao universo submerso em palavras
cabe sempre um traço encantador de existência...

pelo menos é  como deveria ser.
e são tantas as essencialidades de uma "vida existida" 
que muitas vezes a falta é sustentada pela impossibilidade de se compreender.
lição primária ou talvez mera orientação para este longo exercício seria a de que
não saltam dos olhos físicos as significâncias de um verbo.
o verbo somente se interpreta quando inspiramos o suspiro de um olhar.
veja a diferença gritante entre os olhos e o olhar.
é a mesma entre existir e viver, nesta mesma ordem "diga-se de passagem".

dai surge uma sucessão de paradoxos a contornarem o raciocínio complacente sobre as paixões irresistíveis do mundo e que dispensa toda forma lógica de amar.
aliás,
existe lógica em amar ou a lógica é o viver para amar?
as respostas, quando desconexas, podem conduzir por caminhos que nunca se encontrarão
ou simplesmente revelarem que o verbo deixou de ser compreendido num pouso qualquer do olhar.
numa ou noutra hipótese as essencialidades de uma "vida existida" protagonizam o próprio anonimato.
fogem aqui e acolá pela beira do quase-abismo.   
o problema é que toda essencialidade (essencialmente) surge para ser notada,
conquanto invisível aos olhos.
nasce para ser inspirada em respeito ao suspiro do olhar.
se duvida, explique como alguém, algum dia, sentiu o arrepio sutil num pouso de olhar sobre o outro.
sim, eu sei que um arrepio é só um arrepio...
mas um arrepio sutil, minha cara,  
é uma essencialidade sentida naquele único segundo que se transforma em todo tempo do mundo.
eis a gritante diferença.
o essencial de fato é imperceptível aos olhos...
vê bem quem vê com o coração.
nisto reside o deleite do devaneio
o radiante encantamento
e o pouso de um suspiro em gratidão.
 

a vida se encarrega...

[pic by bneubern]
"fumo de rolo arreio de cangalha
eu tenho pra vender, quem quer comprar
bolo de milho broa e cocada
eu tenho pra vender, quem quer comprar
pé de moleque, alecrim, canela
moleque sai daqui me deixa trabalhar
o zé saiu correndo pra feira de pássaros
e foi passo-voando pra todo lugar
tinha uma vendinha no canto da rua
onde o mangaieiro ia se animar
tomar uma bicada com lambu assado
e olhar pra Maria do Joá"

[clara nunes]




a frase aparentemente é horrível,
mas a vida efetivamente se encarrega de muitas coisas.

os pessimistas concluem:
vingança!
já notou como todo pessimista sempre tem a vingança como um fim em si mesmo?
a vingança é perseguida pelo pessimista que  vê no troco do martírio qualquer redenção que lhe sirva.

os otimistas concluem noutra obviedade:
vitória!
mas se há  vitória,
de certo 
nasce para alguém o desejo de vingança por ter perdido.
maldito antagonismo.

a vida se encarrega...
de que?
ok, não sou pessimista nem otimista.
então recomecemos
a vida se encarrega de muitas coisas
se encarrega de tornar mais cinza o que nasce de um sonho colorido.
se encarrega de tornar colorido o que nos surpreende por sua tonalidade cinza.
a vida se encarrega de transformar olhares, toques e sabores.
mas para se encarregar precisa ser um múnus.
precisa portar alguma função digna de fazer tudo aquilo que nos salta aos olhos pertencer a um novo olhar.
olhar sobre tantos outros entre outras vidas.
olhar sobre as vidas que compõe nossa única vida.
e ela se encarrega...
definitivamente se encarrega
de nos mostrar que tudo se limita ao novo olhar
ou a um velho olhar de se encarregar.
bendito antagonismo.


tempo, tempo, tempo



[pic by bneubern]




em alguma noite um devaneio adaptado:

[...]
 
 
de fato não fomos agraciados com a dádiva de suportar o "cavalar galope do tempo" que com ele leva sentimentos, memórias e sonhos...
haveria pois uma maneira de tornar perene tudo aquilo que naturalmente nasce para morrer ou partir (como queira)...? 
penso eu, na minha humilde constatação pragmática, que palavras benditas ou "mal ditas" resvalam na mesma durabilidade tempo em seu "cavalar galope". 
isso porque o tempo em si é mera questão de espaço, de percorrer distância...

assim é com a terra no entorno do sol e com a gente que corre de tanta gente e ao encontro de... 
o tempo é perene
e se o tempo é questão de distância medida por espaço,
temos então que o caminho é perene
porque todo caminho é questão do tempo que se tem para percorrer.
assim
as palavras percorrem o tempo perene
e tornam imortal o que sempre parte em outras tantas partes...
 
...