uma carta

à destinatária certa...

"mando notícias nesta fita"

[pic by bneubern - meu saudoso recanto]

desculpe a demora em escrever-te, hoje entendo as reclamações de chico com relação aos serviços de postagem [sorriso]. os interceptadores de palavras empenharam-se e com suas mutretas transformaram nossa chuva de março em tempestade de barulhos ensurdecedores...eu preocupada em secar tudo por aqui afoguei-me nas mesmices cotidianas que tanto repudiávamos com nossa magia em letras d'àgua cristalina.
não ria assim de mim, eu sei...eu sei... ainda me lembro que por vezes tentou me explicar que palavras transformam-se em absolutamente tudo que os olhos sedentos querem ouvir, mas você bem sabe que tenho dificuldades em me calar e ainda não encontrei a cura do meu vício pelo verbo... provavelmente nunca a encontre, conforme demonstro agora [sorriso], tenho para mim que esta é mais uma das certezas incontestáveis. sempre precisei de palavras de condão para concretizar sentimentos, ainda quando trazidas pelo teu silêncio, sendo assim te mando sentimentos selados com nosso tom e espero que os receba...
quero dizer-te tantas coisas e confesso que por vezes penso nas tais mesmices cotidianas e meu pulso pulsa em escrever-te, mas como pouco nos prendemos a elas quando nos reencontramos, escolho dizer-te a respeito de minhas últimas leituras filosóficas e ensaios sobre o maior dos antagonismos humanos em suas inúmeras faces. impressionante como o amor invade e toma todos os questionamentos de nossas almas... sei que também é atormentada por este malandro que nos deixa cadenciadas num samba que mesmo quando a dois remexe os sentidos de quem o escuta... sim o amor, "o menino guerreiro da arma ligeira e...". não ria assim, a referência é da minha primeira leitura infantil a respeito do tema, o livro "menino guerreiro" que até hoje guardo em minha memória e recito os versos com a pontuação das páginas virando, o que somente as crianças reproduzem com tanta exatidão.
quando tive com azevedo pensei ser a expressão máxima do significado, o amor reproduzido na imagem convencional da lavadeira na janela em sua brilhante conclusão:é ela! escutei as reclamações pessimistas de augusto quando cuspido pela boca que o beijava transformou-se em fera, diverti-me com a praticidade de manuel que abandonou tudo e fincou seus pés na terra do rei de pasárgada. vinícius voltado à boemia como sempre, embriagou-se numa roda de samba e ritmou o fogo eterno que o condenou à reabilitação solitária, fim dos que amam... tantas eram as informações minha cara que até o pseudo apóstolo, e que Deus me perdoe, foi alvo de meus questionamentos já que em mim, contrário ao entendimento do bondoso cristão, sempre foi ferida sentida à flor da pele e ainda que nem sempre presa por vontade a ele, tenho o malandro menino como maior referência conceitual da tão sonhada liberdade.
meus estudos, em nada conclusivos, causaram-me insônia, choro, sorriso, cócega, gagueira, saudade entre saudações e tantas outras coisas que ainda que elencadas não esgotariam o conceito de infinito incontável... não é redundância não, acredite, afinal é a referencia temporal que determina o incontável à finitude da vida humana... tudo bem, retórica filosófica à parte, quero dizer-te enquanto me é concedida a vida finita que tudo que toma o pensamento e nos arrebata entre segredos é digno de ser chamado amor... o cuidado do pai para com o filho cativo pelo castigo sempre injusto, o desespero da irmã mais velha que perde a calça agulha no palheiro gaveta da irmã mais nova, o abraço embriagado do amigo que te oferece o último gole de cerveja, a saudade daquele que se ausenta e leva todo o ar embora até que retorne...
como pude demonstrar, ainda que não tenha conseguido escrever-te já que tenho andado ocupada por aqui, não deixei de sempre querer-te por perto causando desespero aos tantos olhos sedentos destas letras daqui... portanto minha cara, volto a perguntar-te... e por que duvida se ainda brota a mesma flor? a dúvida deixa estático o que é naturalmente dinâmico, lembra-se?

do mais a marieta manda um beijo para os seus...

com carinho,

ass: Amo-te!