chegar e partir

"todos os dias é um vai-e-vem a vida se repete na estação
  tem gente que chega prá ficar, tem gente que vai
  prá nunca mais...
tem gente que vem e quer voltar tem gente que vai, quer ficar
  tem gente que veio só olhar
  tem gente a sorrir e a chorar
  e assim chegar e partir...são só dois lados
  da mesma viagem, o trem que chega
  é o mesmo trem da partida...
a hora do encontro é também despedida
  a plataforma dessa estação
  é a vida desse meu lugar
  é a vida desse meu lugar
  é a vida..."
[m.nascimento]
[pic by bneubern]





"chegar e partir"... 
esse é o movimento contínuo da vida
que se encaixa e se deixa encaixar em outras tantas.
o dinamismo digno da visão trimensional que tende à contemplação de fatos alinhados aos valores íntimos de cada ser passante tão logo ausente.
assim inicio o derradeiro suspiro de toda viagem...
inicio o término do que aos poucos se transmutou e fez chegar a partida...
acelerou o passo do choro, 
secou toda lágrima
e desacreditou a própria fé.
vejo o viajante inerte no vagão.
no seu referencial olha pela janela e percebe que a vida lá fora se renova a cada curva.
os olhos atentos às renovações logo constatam que a visão limitada à moldura, guardiã da beleza, é a mesma que evidencia o conformismo de quem espera a chegada...
aguarda sentado a próxima parada!
lá permite em moldura a espera de outra gente e entre tanta gente deixa na moldura o viajante da estação...
pra esse, o tempo é medido com vapor de fumaça.
prende o ponteiro de roda deixando partir o todo no tanto de espera...
e o que espera?
a chegada de partir?
não se esvazia do ruído ao longe e deixa de escutar toda gente neste tanto de espera...
não descarta a desculpa inútil de quem anda atrasado ainda que o atraso quase sempre movimente quem deixou de chegar.
mas como chegar?
noto que partir é também chegar 
ainda que em outros tantos lugares...
é partir para retornar
desdobrando no mesmo tempo o ponto de chegada e partida.
essa é a triste sorte do viajante condutor que proporciona a beleza em moldura 
medindo o espaço de fumaça no tanto de espera.
e quem o espera?
a chegada de partida
que acelerou o passo riso,
secou toda alegria
e acreditou a própria descrença.








brincadeira



" e olhar pra ela não deu, a flor nunca colheu, ainda pensa que é feliz... pára vê se anda de mão dada, procura tua vida que tá lá guardada só até amanhecer... [karallargá]"















[ pic by bneubern]




qual são as cores que permitirão alinhar tua brincadeira? 
não entende?
pois explico: 
os limites racionais não são responsáveis pela derrocada e sim o que afronta o sentimento vivo, tira a alegria das cores mandando para o canto o que deveria ser harmonioso e singelo... 
vê as cores no chão? 
entende ser triste o abandono da brincadeira?
não seria se tivesse a capacidade de contemplar o que está suspenso e aguarda a vinda da criança inocente, pequenino dono da harmonia de pensamento selado em branco.
branco sim... porque se espanta com a escolha? 
o branco da paz gira todos os tons atraindo fragmentos soltos...
não tenho a menor intenção de explicar o que sei ser lógica irracional aos teus olhos, filosofia rasa embaixo da xícara de café, como queira...
na verdade não tenho qualquer intenção que não seja a de rascunhar o que não pode ser entendido por simplesmente ser imperceptível aos teus olhos.
sendo assim fico livre para escolher a tecla mais adequada à situação e dizer sobre o detalhe que torna as coisas tão mais lindas...
a brincadeira faz da letra um mundo
da roda corrente de afeto indestrutível
da lembrança esconderijo
da boneca de pano amiga inseparável
de nós o que escolhemos não ser...
a certeza que me toma agora é o que o termo brincadeira te causa profundo incômodo
acertei?
...
esse talvez seja mais um detalhe-fragmento-solto que precisa do branco
brincadeira tem brinquedo, 
brinquedo pequeno dono, 
dono grande amor
gira gira que vem branco novinho a ser preenchido com os contos que escolher
gira
gira
gira

mas preencha com amor na brincadeira que tem brinquedo do pequeno dono
preencha pequeno dono com o amor de brinquedo pra engrandecer a brincadeira
preencha brincando com o pequeno brinquedo que é teu grande dono
preencha com pequeno amor dono da brincadeira que é teu maior brinquedo
preencha com amor dono do pequeno 
gira
arranque a vírgula dos teus olhos e queira toda tontura bem vinda...
 escolha tuas cores
e na tontura do giro alinhe tua brincadeira com amor
pequeno dono de brinquedo







beleza morta


"quando percebe o desgosto do gasto
e gosto da farsa disfarça que não tem tamanho
nem foco, nem brilho, nem alma, nem cor
e ainda desmente que medo não sente
que tudo é pecado e nada é perdão
felicidade reinará e o dia raiou
tudo em claro e viva cor, o sol em meu mural
desbota a minha dor... felicidade reinará" [m.c.acajú]



[pic by bneubern]



submersa na beleza morta que te envolvera, 
ela chorou pelos tais
fez-se solidária ao sentimento forjado inutilmente em solidão 
sendo a mesma de todas as bençãos, 
escolhas
e arrependimentos que sabia não serem tantos assim.
a cada segundo de sua jornada 
via o contorno das cores artificiais 
tentarem contra seu peito fortificado em pura fraqueza.
e por ser a mesma, a condenação não a faria solitária
por não haver destino que não se faça 
nem caminho que não se possa percorrer
entendia a angústia do tempo 
que na piada sentou-se à mesa sobrecarregado de tantos 

dissabores
e assim o via remendar o enredo abandonado à própria sorte.
que sorte?
não queria responder aos gritos de azar
e este infiltrava malicioso no contorno daquelas cores
de beleza morta,
rejeitava o brilho próprio que guardava 
"desperdiçando luz de manhã num copo de café"
mas era solidária.
o sentido de tudo dependia do sentir
e assim propunha
até que lhe fugisse o fôlego
da sobrevida que restava 
e não queria. 
queria ser infinda em cada contorno
queria o sorriso, não o desgosto
queria tantas coisas!
e de tanto querer pôs-se a caminhar
caminhou apontando para a fé
passo a passo
nua do conformismo escondido em mera existência
a evidenciar a morte de toda a beleza.
passo a passo
fez trilhar o escolhido destino
até a dobra da sorte que calava
assim
velou a morte da beleza
e deu luz ao movimento em vida. 

era música


eu realmente acho lindo essa coisa de duas pessoas não quererem 

nada que seja bom no mundo além de uma a outra. e eu queria 

você, muito. o querer mais bonito que pode existir era seu, só 

seu. [caio fernando abreu]





[pic by bneubern]




era música...
aquecia o peito de invasão bem vinda destes acordes
companheira da dança mais bonita,
aquela que acalma
lava a alma como chuva no tanto de tempo certo.

era a mais linda melodia do dia...
de todos os dias
fazia voar celeste longe do solo seco da terra,
fazia flutuar leve a manobra em sorrisos,
em olhares vibrantes de cada acorde da vida.

sutil envolvia com encantos
sabia que o bocejo preguiçoso ofereceria gentilmente
a curvatura delicada das costas,
desenho de pauta a guiar o refrão tão desejado de seu beijo.

criava a batalha mais doce para guerreiro rendido em amor
se divertia ao ver que toda armadura-armagura
brotava flor nascida em seu ventre
solo fértil.




senhora do tempo, compassos, pausas, passos...
teu ritmo é responsável pelo escoamento da maré
e a calmaria esperada pelo navegante
sorri mais uma vez!
é o que deseja o musicado dos teus acordes

para voar
que toda gente foi feita para isso

para secar
que toda gente foi presenteada com o vento.

e musicando assim toda vida,
teu guerreiro se rende mais uma vez
é vassalo porque devolve a ele a alegria da composição
desarmada da teoria métrica
desgarrada das armas que privam a harmonia.
dedica a ti as notas desta noite
a vitória sobre as dores dos não-amores
porque é música, a sua música
e invade o peito com teus acordes
aquecendo a batalha doce do guerreiro
e por ser rendido em amor
toma a ti que é música
e te faz como par.





opus 28


"a noite estava assim enluarada[...]

a luzir glorificou"




[pic by cris peres]




que nos proteja!



conduza para o lado de lá 



onde o 7 é efetivamente o número de sorte, 



o limite do infinito a revelar alguns de seus mistérios.




que nos guie!




para a renovação de todos os pactos



durante noites em que insones o sorriso iluminará



em sinal de paz e contentamento.





que nos acalme!




envolva-nos do magnetismo eficiente em opus 28



com 4 doses de sorte infinda



gentilmente trazidas no teu mar minguante...

mago do tempo



[pic by bneubern]



qual não é a surpresa destes dias de sol e nuvens negras?
é chegada a hora certa! 
eles são a revelação do acaso e o mago dos tempos tratou de desenrolar o crepúsculo delegando teu nome ao que de tolo transmite-se em puro delírio.
ri agora se desfazendo em pouca nobreza, derriba teus muros entregando o império fadado ao fracasso agressivo das cores mortas contrastadas pelo verão.
agora pouco lhe assombra o manto negro da noite porque foi o rompimento do cinza que sobrestou a prova irrefutável da inexatidão dos cantos. 
inexatidão compassada em som de sino-paixão que balanga cansado a marcha do carnaval.
inexatidão da ausência de cor imposta pelo barulho da chuva, fogo e mar.
é chegada a hora! 
o derradeiro canto, desencanto dos fracos. 
não alivia a cura que escapa das mãos unidas em amarras.
reza. 
implora por redenção, mas tenta teus deuses com cuspe de saliva no centro da cara, inclina a cabeça para esquerda e estende as mãos amarradas para este mesmo lado. 
por isso não alivia a cura. 
a palavra da boca já não transmite teus sinais nem tão pouco purifica os caminhos. vai divagando a cantarolar o desconforto perpétuo que condenou os campos nunca antes floridos. 
e não escolheu. 
é peça marcada num tabuleiro de pedra que não edifica. 
por isso não se livrará das amarras nem tão pouco dos nomes e gritos que desfiguraram a face, olhos e raízes.
geração desenganada, escolhe a sorte dos pobres de contorno e deixa ruir como os muros do império.
é chegada a hora! faz sol com nuvens negras.
o mago do tempo os chamou entre delírios e confissões vai desenrolando o crepúsculo.
agora.
...

quebrante




"faço essa canção pra te acalmar esteja morena, você aonde for...você sabe bem onde fica toda dor, morena.
a chuva e um tanto de tempo pra molhar, vento que bate pra a gente se secar[...]que a gente na vida foi feito pra voar e o vento que bate pra a gente se secar..."
[m. camelo]


[pic by bneubern]

[eta vento esse de sacode bandeira, bagunça mar,
tufão roda ciranda gira vem vai pra sonhar
a menina da lua cantou não pode parar
então toca a dança ciranda que voa rindo barulhar...]


[vento rodamoinho gira pião na toca do mundo
gira branco cor carrossel pra soprar em sonho profundo]


[toca flâmula vai vem que a gente chega pra lá do além 
que tudo acontece girândolas num por do sol sem ninguém]



era tarde, não a de sol poente porque se fosse saberia que na roda de ciranda a toca da cura crepita quente em fogueira regada de canto e dança. por dissimular o "não-saber" era tarde.
a despedida forjada em encontro escutou os sons de uma nova cidade, correu a prece com o vento e não escondeu que se fez alvo fácil para as cores da estação.
o mar trouxe mimos de acaso, levou para terra do nunca, para sons que transbordaram das águas e tratou o juízo como náufrago.
o silêncio se pôs a gritar, clamou por beijos silvestres colhidos de suas luas. estava exausto de lembrança, do peso de bagagem. queria a janta farta para encerrar toda fome de gosto e mal sabia que a fartura seria posta em mesa redonda talhada em lei de ciranda.
o mar cheio de lua aliava-se aos redemoinhos e neles entregava por acaso tesouros, devolvendo pouco a pouco cada gota de fragmento daquele náufrago.
até o pequenino viajante foi ofertado entre ventos com flores de cativo. era lembrança viva do tempo dedicado à colheita, do relicário escolhido para caber no eterno.
os sons transbordavam daquelas águas, tratavam de lavar a concha da mão em sinal de batismo... batismo do silêncio enquanto palavra de saudade.
ventava...ventava muito para secar, para girar a ciranda em carrossel e fazer terremoto em cada pisão de pé. e foi assim que o convite já não tão sutil perdeu seu par cirandando dentro da roda, rodopiando com a dança de regar fogueira. aquela que segura a nuca com a concha da mesma mão que em cumbuca reúne gotas de náufrago em sua completude.
já era tarde. aquela de sol poente em que o silêncio contemplava calado com o beijo colhido de suas luas e cirandava na roda da cura aquecido pela fogueira regada de canto e dança.


"faço fogueira, choro, canto e danço"
[ moska ]

uma parte que tem



[pic by bneubern]



"não tem bala, belo, bola ou balão, não tem bula meu remédio e não tem cura...
acho que me perdi numa excursão que fiz na tua na tua certeza e na contradição 
e não tem cura...acho que me perdi numa excursão que fiz na tua...
na tua palavra, no teu palavrão
...
e não tem cura...acho que me perdi numa excursão que fiz pra lua no meu universo 
o sol é solidão e não tem cura... acho que me perdi numa excursão que fiz pra lua
no meu único verso o sol é solidão...
não tem mal, nem maldição, não tem sereno no meu dia, não tem sombra e assombração
não tem disputa por folia, tem bola de capotão, capitão capture essa menina
tem saudade e saudação, tem uma parte que não tinha... 
parte que não tinha... parte que não tinha..."[t. mágico]




os sons da cidade assaltam a nova madrugada 
canela em pó é lembrança na boca de suor
e transpira involuntária.
escorre por mãos que surruram segredos...


palavra muda do cartão postal  
leve as mais lindas cores da estação!
tenha pressa!
vá correndo...
voe!
chega logo que a noite não se vai
e este é o lado bom...


dentre os tais finja tapar ouvidos,
dissimule!
minta...ignore o socorro!


se feche em conchas


(relicário desses novos sons
e assaltam em silêncio a madrugada.)


... em conchas salve as "conversas sem pressa..."




palavra calada da noite
leve o que te é sutil.
caminhe em passos curtos.
flutue sorrateira em sinal...
sussure o cheiro da canela!
seja menor que o ruim...


dentre outros queira o bem desses meninos que pensam demais.
dentre tantos seja a parte que tem
entre nós...


toca a cura.

filho de sol poente





[pic by cris peres]




" marinheiro só...quem te ensinou a nadar?
ou foi o tombo do navio?ou foi o balanço do mar"
[m.monte]

"eu não sou daqui também marinheiro...
mas eu venho de longe e ainda do lado de trás da terra
além da missão cumprida..."
[m.camelo]








marinheiro...
se me devolve a pergunta digo que na dobra do mar,
do lado de trás da terra,
um-quase-gingado-balanço me deixou exausto da missão.


sou filho de sol poente, marinheiro.


apartado, arrancado, retirado de mim...


não me foi concedida a despedida adequada, nem tão pouco escolha de voltar.
...
volta?


não, não há volta marinheiro.
naveguei remado de fé e só.
...
sei que te incomoda não ser o único a não ter teu amor,
mas o mesmo tombo que te ensinou
me botou nos olhos todo o sal que arde e arde muito...


por isso digo que não há volta...


você guarda a queda.


eu o que definitivamente não foi insosso.
...




não marinheiro, não duvido!




...


e não me aparto do sol marinheiro!
...
será que não ouve a fúria batendo em pedra
condição daquilo que escolhi... não-ser?


...
não, já disse! não há volta.


houve...não mais...
por isso há saudade
pelo que foi e não mais.




marinheiro escuta o tom...


ouve tua maré...


atenta que não te engana o mareado.


...
tudo bem.
te conto do lado de trás,
mas terá que enfrentar farpa
como condição do que escolher não-ser nos olhos ardidos de sal
e não sentem tua queda insossa
frente ao meu exausto cumprimento imposto.


...


marinheiro, não estou rindo do teu salvador
nem tão pouco de tuas braçadas...




não estou rindo simplesmente.




se te incomoda a primeira,
o que sentirá com todas as outras
a rasgarem tua pele cruelmente
e sentir o que é meu em carne e osso?


...


escuta o que não é faceiro marinheiro:


além da missão não há pretexto do teu branco-império que me imponha.


não há!




como não há volta além da missão.


fez-se mar o que não me foi insosso e eu também nado!


remo de fé e só.


além da missão marinheiro...não há volta.


isso é sobre estar só.
isso é sobre o que não é insosso.
isso é sobre o que não há volta.


isso é sobre o que não somos eu e você marinheiro


isso é ser filho de sol poente, em nada faceiro.
nem de branco, nem bonezinho!


isso é ...
"vir de longe, do lado de trás da terra, além da missão cumprida"


com olhos carregados do que não foi insosso,
não me quebrou a queda,
nem me quebrará teu branco império já quase mareado.

prece ao silêncio de condão


[pic by bneubern]

permaneceu assim
bolha de sabão suspensa o vento sustenta
guarda todos os sonhos, noites, dias...
sob o sol que arde reluz teu laranja

deixa!
aguarda...

escurece que a lua se encarrega à meia luz
e em azul contorna teus segredos em cada nota desta melodia.
alma lavrada, refeita,
reinventada como as tais e tantas outras notas

aguarda!
deixa...

flutua leve que o acaso não mais esconderá
pois fez-se em mar aberto de correntes que lavam...

levam...

leve...

inventa o que será dito e o silêncio
teu fiel criado
é guarda a espreitar.

desvenda teus rumos suspensos
sustenta tuas meias verdades.

bolha de sabão suspensa o vento sustenta,
sopra longe

permaneça assim
condão que inventa por um mero acaso segredos em magia

...
contempla
...

bolha de sabão suspensa que o vento sustenta
desce nos olhos e ruma!

leve...
leva...
lava!

amanheça nostálgica
adormeça insone

silencie e espreita o ditado

aguarda!
deixa que vai...

lava!

leva leve com o vento...