continuação...

[pic by bneubern]


"o contra o encontro a contração
a era o eros a erosão
a fera a fúria o furacão
o como o cosmo a comunhão
a comunhão

o pré a prece a procissão
o pós o póstumo a possessão
a cor a corte a curtição
amor a morte a continuação
a continuação" lenine
beirava a loucura.

era um impulso visceral que extrapolava a lógica do comportamento

num instante absurdamente intenso o pensamento acelerado tratava de dar voz ao que não devia

e se misturava à saudade daquilo que nunca esteve por aqui...

como explicar os desmandos de um coração fora de compasso?

como explicar o grito de um coração emudecido pelo sepultamento na cova do tempo?

era um ritual de luto

era espera

era desconforto pelo conformismo.

desajeitada a alma ocupava um espaço apertado e insuficiente.

desconfortável no corpo "em que deus lhe encarnou"

precisava entender o lhe faltava

e assim se pôs a caminhar pelo mundo

em busca do que não se pode achar

porque a busca era o seu propósito

e o encontro tornaria estático aquilo que veio

para sempre caminhar...






suspensa

"cubra-me com seu manto de amor, guarda-me na paz deste olhar. cura-me as feridas e a dor, me faz suportar. que as pedras do meu caminho. meus pés suportem pisar, mesmo feridos de espinhos, me ajude a passar. se ficaram mágoas em mim, mãe, tira do meu coração e aqueles que eu fiz sofrer, peço perdão. se eu curvar meu corpo na dor, me alivia o peso da cruz, interceda por mim, minha mãe, junto a Jesus" [n. senhora]




e eu fiquei assim... suspensa sobre a paisagem que se revelou diante do acontecimento.

tratava-se de um silêncio ensurdecedor, enquanto todos meus pensamentos gritavam :

-o  que é que foi de nós?

eu esperava [esperançosa] alguma reposta que viesse com o vento.
....
silêncio.

alguns me perguntavam insistentemente:
- o que foi? o que ocorre?

eu respondia sem compreender também:
- apenas uma tristeza profunda.

e era tão difícil descrever o que havia...
era um pesar profundo pelo que não foi, nem nunca teria sido.

eu infelizmente sabia de todos possíveis desdobramentos daquela subjetividade tão subtraída de si.

e insistiam:
-o que foi? o que houve?

eu respondia sem querer compreender:
-uma tristeza profunda e me deixe!


felizmente eu sabia que a ausência de palavras impediria o escândalo agressivo de leitores desatentos.


suspensa, permaneci sendo indagada:
-o que ocorre? o que há com você?

silêncio...

me calei quando minha cabeça pendeu para a esquerda em sinal de reflexão.


-pois me deixe aqui!
respondi sem paciência.

e continuei...

-por que raios está me sendo subtraída também a possibilidade de sofrer? não me basta a subjetividade que fora arrancada de mim nessas escolhas loucas da vida a nos surpreender?

hipocrisia????

não seja estúpido!

trata-se de nós...  de mim.  do fardo pesado dos últimos meses, anos, décadas e séculos que definitivamente não vão passar...

e eu ali suspensa... brigando com o vento, tempo e deus.

o evento morte pouco me importava.

juro!

o problema era o que antecedia a ele.
o sofrimento de um ser que há muitas internações estava perdoado.

e eu pensava em silêncio:
-por que meu deus? por que?

deus não me respondeu...

e eu não estava braga com deus.
frise-se!

estava apenas suspensa...

estava sem querer contemplar os detalhes mil de toda uma vida.


foi como eu disse, era uma tristeza profunda e eu suspensa por ela.
eu suspensa nela.

por quanto tempo?

"não sei.... só sei que foi assim"

suspensa.





....

ps: e assim renovo as palavras da sustentação.

altero a conjugação dos verbos inserindo todas as reticências...

que continue...

e continue...

e me sustente em outro dia talvez...

...











até que a morte nos repare


[pic by bneubern]


"não chora que eu choro junto
te acalmo e mudo de assunto
que tal falarmos do tempo
e esquecer o que dói por dentro
mas se a previsão for ruim
e o céu se fechar pra mim
a tristeza vai me afogar
com a chuva que cai, cai do seu olhar
não não chora que eu choro também
me abraça e desfaz o que não faz bem
eu sei, esse choro tem razão
é nascente que vem e lava o coração
não posso te ver chorar
sou afluente do seu olhar
deixa a correnteza levar a tristeza pro mar" [m.c.acajú]



[digerir ao som de  "let it be"  para os nascidos antes de 1983 e "não chora"  para os demais...]

...depois que o primeiro  nó na garganta se desatou em um discurso cheio de lágrimas, entendi que era hora de despir a experiência em palavras.
há quem diga que a história deveria ser contada do começo. mas eu mesma não saberia dizer onde começa ou termina cada ponta da trama. neste caso o benefício da dúvida é inaplicável aos  juramentos enferrujados e julgados pelo tempo.
talvez pelo enlace selado na jura "até que a morte nos separe", ou pela promessa que emudece na ultima estrofe de "por toda minha vida..."
o problema é que a jura se perdeu com o vinil de ferro, mesma sorte dos livros de tarô queimados em alguma inquisição.
o começo, quem sabe, poderia ter sido num baile de carnaval ou no nascimento dos filhos paridos de algum pecado. mas sempre há uma terceira opinião que afasta a folia em nome da ordem republicana.
fato é que se a infância é a sobremesa da vida, eu definitivamente vivi o maior antagonismo da história e não era de se estranhar que a cronologia dos fatos estivesse toda comprometida entre enlaces matrimoniais, carnavais e repúblicas.
sei dizer que cada miniatura de lembrança foi examinada cuidadosamente e que por ironia do destino, ou do passado [não tinha certeza] herdei quatro tartarugas de vidro, pedras caídas do castelo de cartas e os livros proibidos de magia.
era o legado de uma cigana que percorreu as linhas de muitas mãos e afastou as únicas que mais tarde a acolheriam.
entre anotações e recordações, a maior parte dos afetos soltos chegaram aos seus respectivos destinatários. os segredos sórdidos daquela figura sempre ausente aos poucos se revelaram como o maior retrato da solidão enquanto escolha, "sua companheira inseparável".
entre nós desatados  sei dizer que não havia mais raiva, mágoa ou rancor.
outro de nós ainda atado, cantarolava aos prantos o trágico desfecho de ser ele um bom josé. só assim mantinha respirando a carcaça de lembranças apagadas pela dor.
entre um e outro gole de cerveja engasguei  num afeto que ela o enviou em silêncio proposital. veio carregado dos três pontos que nunca encerraram minhas frases e  eu intimamente sabia que era a permissão para que as palavras rumassem por caminhos inimagináveis...
dizia:
 "quem dera um dia soubesse o que me faz sofrer assim... quem dera um dia pudesse ser eu mesma em mim. quem sabe poder esquecer as coisas que sinto enfim... quem sabe um dia saber porque sou tão triste assim. talvez um sonho perdido, quem sabe algo que esqueci. talvez a perda do sentido, daquilo que nunca senti..."
silenciei diante da previsão já ultrapassada pelo tempo e da certeza de que a troca de todos os nomes não foi a primeira coisa a se perder.
sei que a vaidade sempre foi a razão determinante de seus atos, até mesmo quando escolhia dedicar aos apartados por suas mãos as poesias que por elas eram produzidas. mas isto não minimizou o impacto de reconhecer naqueles dedos a subjetividade dos laços descritos tão fatalmente.
era a sua escolha esboçada, tal como numa carta suicida. eu que sempre entendi o tempo como questão de percorrer distancia, corri a maratona vezes sete ao concluir a leitura.
desenganada pela profecia de suas próprias mãos, chamou pelo meu nome, me beijou a face e pediu para que ele viesse ao seu encontro. o mutismo não foi capaz de calar o que parecia ser o ensaio da despedida.
depois de mais de uma década vi lagrimas, muitas lágrimas e pela primeira vez pedi para que não chorasse porque eu choraria junto. aliás as lágrimas me convidaram a vasculhar seu olhar de ressaca e todos os apelos que queriam gritar não fossem os 35 kg de tristeza e esquecimento que a consumiram nos últimos anos.
em minha mente ecoava o canto "não chora que eu choro junto, te acalmo e mudo de assunto, que tal falarmos do tempo, esquecer o que dói por dentro,  mas se a previsão for ruim e o céu se fechar pra mim, a tristeza vai me afogar, como a chuva que cai, cai do seu olhar...."
era estranho sentir a conta literalmente zerada. era estranho sentir a necessidade de tirar daquilo que sobrou de toda vaidade o peso da conta negativada. em mim triunfava a paz. nela a inundação salgada de amargar o triste fim de cada lágrima rolada do nosso penar. se pagou redobrado? bem... pra nós desatados pouco importava. para os ainda atados, o arrependimento profundo de desejar a dobra que incontestavelmente veio a cavalo.
não... não desejamos. nem ele queria. era triste demais, duro demais, desumano ao extremo e isso consumia a todos, menos aos que se afastaram hipocritamente com a falência dos ativos que sustentaram seus desejos mesquinhos de falsos cristãos protestantes.
estes especificamente acreditaram que a oração dos "justos" tinha afastado o desengano da profecia. pobres tolos! não entendiam a necessidade do desapego de um amor incondicional, não entendiam que a jura de amor não os separariam e sim repararia desencontros provocados por desmandos passionais.
em mim mil provocações ocorriam todos os dias. uma vez escutei que éramos o elo eterno. não acreditava piamente nisto, mas vivenciava ser o elo presente e necessário para que os atados se desfizessem em perdão. se isso ocorreria ou não, só o futuro diria... fato é que eu vivia o maior antagonismo da minha vida e aquilo parecia ser a sobremesa da vida ainda que fortemente azeda, como um pirulito piripimpim...
a ausência se transformou no elo que nos uniu no último natal e na conversa resgatada em nossa varanda. renovação de um ciclo. o que se apartou de nós nos uniu em novos projetos seguidos das despedidas necessárias.
foi como eu disse...
há quem diga que a história deveria ser contata do começo. mas como não sei dizer onde começa ou termina cada ponta desta trama, escolho finda-la com a única conclusão que me parece lógica...
somos felizes desde sempre
e até que a morte nos repare...


...