outras histórias: grades - 17/07/2009

[pic by bneubern]
nós eramos escravos de nós mesmo, cercando tudo com limites imaginários.
não era questão de ousadia simplismente... era dar forma ao que nos sondava abstrato e que nos alimentava das mais sólidas emoções.
o tropeço no mundo real, ainda que desenhado com tinta, significaria o rompimento destas barreiras com o cimento de "cruz-peso-sobre-os-ombros".
era assim que acontecia. 
eu supunha que abstrações não limitavam meu mundo apenas e que desde o princípio eu não era a única "a me exibir pra solidão"... 
ocorria que os traços, nem sempre tão claros, me conduziam num "ligue os pontos" e eu buscava com a mesma empolgação da infância o contorno do imaginário, amigo ou inimigo (não estou bem certa). 
por vezes tais limitações me tornavam prisioneira de mim e eu assistia a tudo cercada por grades que  forjei quando das verdades que buscava  me encantava um suposto "pode ser". 
sim, me encantava!
notei nos últimos dias que este encanto é motor de minhas letras, ainda que nem sempre bem recebidas considerando que nos olhos de quem lê se perdem por caminhos próprios. 
problema latente quando penso estar encantada no giro de moinhos de vento, neste momento as inquietações por aqui parecem gritar entre falsos aplausos de gente estranha a absolutamente tudo o que sinto. 
paciência! 
sinto ainda que caso minhas letras liguem novamente o contorno destes pontos, o desenho lembraria o encantador "pode ser" e novamentente assistiriamos a tudo nestas grades que forjamos como desculpa para não ousarmos...

outras histórias: toc 23/04/2009



[pic by bneubern]
na gaveta de relicários guardo o desorganizado da memória.
minhas lembranças são passadas com ferro a vapor e não abro mão da goma! quero manter o brilho dissimulado do transtorno obsessivo-compulsivo.
dobro cuidadosamente cada peça que compõe o monte mor, empilho todas e num movimento reverso separo cada cor.
a sobriedade azul inicia a fileira que anseia o impecável.
logística aplicada à subjetividade humana.

uma
duas
três
...
maldita geometria! 
sobra espaço, falta complemento em amnésia flagrante.
revejo cada peça memorável buscando qualquer retalho da cor fria.
frusto-me!
meus olhos resvalam no quente...
repasso o vermelho, passo, e na passada inspiro o vapor.
dobro as pontas e escorrego em palmas os frisos do tecido desbotado.
posiciono a cor no lapso e segue enfileirada ao azul.
pronto! 
deixa lá!
as peças pretas naturalmente buscam a perfeição. 
parecem marchar como soldados em formação de confronto!
uma, 
duas, 
três, 
quatro! 
impressionante!
o escuro em retalho torna ausente a costura limítrofe. 
não há frisos que aparecem no pano. plano perfeito!
resta o branco! 
goma "pra que te quero"!
neutro num giro de cores, todas as cores! um giro!
e gira, e brilha dissimulando no quente da máquina a vapor.
as palmas afastam os frisos que se escondem em cada ponta,
nas mangas 
e colarinhos. um crime!
esconde tantas cores enquanto oferece um giro não tão neutro! 
estelionato!
de qualquer forma:
uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete.
pronto.


antes um relicário de fatos ao de sentimentos
dos fatos lembramos entre imagens
já sentimentos... 
sempre à flor da pele.

e o que vestir?

outras histórias: mergulhadores de plantão [2009]



[pic by carolina neubern]



a vida se renova a cada dia!
 
-eu acho. 


me responderam...
 

digo que tenho certeza!
 

deixa eu explicar o que passa por aqui...

 
 



meu mundo só se firma em incertezas se eu assim o permitir 

e qualquer incerteza é mera desculpa a me esconder das escolhas que faço.
 
penso por vezes que se submersos no ostracismo mental e enfadonho da

dúvida somos ainda assim capazes de respirar como quem perde o ar

embaixo d`água,

 motivo outro não haveria para sempre renovar as tantas 

formas de nado em braçadas que levam meus pés para onde quero estar.
 
sendo assim... 


a vida em mar aberto renova-se no mergulho, 

na respiração  presa que faz bombar coragem do coração que desacelera pela escacez do

oxigênio preso em pulmões
 [balões de ar que me levam pra superfície novamente]
 
sei onde quero estar...
 
no novo e em constante movimento desta vida aqui.
 
aos mergulhadores de plantão um brinde!

outras histórias: com dois riscos eu faço o mundo [2009]



[pic by bneubern]
e quem pode definir o que é real se este suor em minhas mãos é de pura matéria?

o diâmetro deste mundo é a distância que o contorna e meus dedos fincam o compasso em raio...

da mesma forma no meu escuro nunca há ausência de luz e sim o distanciamento dela...

entre giros em divagações uma idéia clara:

quero em letras garrafais o deleite desta bela obra,

quero sorriso largo tirado do bolso num de repente surpresa e assim espero...

quero a verdade entre aspas e o fim alongado pela reticências...
o contorno do mundo na palma da mão submerso em meu suor como dádiva desta criação...

quero agradecer o impossível realizado diante dos meus olhos com o bagunçado das minhas letras.

e se pra bom entendedor meia palavra basta que dirá se vierem inteiras?
se te posiciona para longe é esta distância que faz girar o diâmetro deste mundo...

entre segredos de estimação e ficção não tão científica, pouco me importa a quem somos reais...
mesmo porque nem somos tão reais assim e por isso meu sorriso de repente surpresa se forma em agradecimento...

palavras inteiras contam a "verdade" e assim está posta no contorno do mundo.
é o que me basta...
[2009]

cores da estação


[pic by bneubern]


"tremi até o chão como um terremoto no japão, um vento, um tufão..."[m. jeneci]


hoje me lembrei do início da primavera e de todas as flores gentilmente ofertadas  pelas cores da estação...
o verde levado para o senhor do vento cantou o que era tão mais lindo.
evidenciou o desejo de ficar, viver, entregar, tudo curtido na melodia doce de sanfona soprando versos que não rimavam. 
o verde-folha que  voou até o céu chegou a um passo do infinito, daquilo tudo que chamamos ingenuamente de realidade. 
digo ingenuamente pois não há qualquer realidade senão aquela que antecede o exato momento que compõe a memória do presente, a lembrança que não larga e transporta o pensamento para longe. 
a rosa, por sua vez, cultivada como vida quase protegida também brincou de ser ofertada.
era bela, viva, singela... 
em tudo que lhe cabia pueril, aprontou o acaso-magia ao revelar o vinho tom malbec responsável pela embriaguez de todos sentidos. 
e misturou tanta coisa... 
fez do dia uma vida inteira, da noite todas elas.
a estação corria atrasada pedindo todos os socorros postos aos pés do verão-despedida, outono-seco, inverno-saudade...
... claro! não podia faltar o laranja...
o laranja poente fez aos poucos com que todos os tons, cores e sons  adormecessem no silêncio da canção pra não voltar 
e assim era...
notas em prece a sustentar o alicerce de meias verdades.
digo serem meias pois se viessem inteiras o verde teria alcançado o tão almejado infinito.
mesma sorte caberia à rosa malbec revestida de toda proteção digna da vida que chega e deve permanecer.
o laranja por sua vez despertaria nascente seu tom abrindo a sanfona da canção pra sonhar ritmando as tantas e tantas historias que seriam contadas...
é tão engraçado pensar que o laranja poente encerra o ciclo do mesmo tom nascente impulsionado numa subida em carrossel.
é caricatura da promessa de quem diz largar tudo e ir sem data pra voltar até o outro lado da montanha onde tudo começa...


[sorriso largo]


quer saber?
se tudo isso parte da lembrança da estação, em algum ponto do pensamento longe houve o exato momento que antecede a memória do presente
logo
a realidade é posta a flor da pele e agora pouco importa se antecede o verão-despedida, outono-seco ou inverno-saudade. 
se é posta, certamente foi vivada e muito bem vivida!
este inegavelmente é o grande legado da primavera: 
fruto que germina em lembrança jamais esquecida!


...


gentil primavera


...


[sorriso]


gentil primavera...  


...
gentil
...
primavera





samba

[pic by bneubern]



"a lua brilhava vaidosa de si orgulhosa e prosa com que deus lhe deu, ao ver a morena sambando foi se acabrunhando então adormeceu o sol apareceu...  
um frio danado que vinha do lado gelado que o povo até se intimidou... morena aceitou o desafio sambou e o frio sentiu seu calor e o samba se esquentou...
o mar serenou quando ela pisou na areia quem samba na beira do mar é sereia... 
a estrela que estava escondida sentiu-se atraída depois então apareceu, mas ficou tão enternecida indagou a si mesma: a estrela afinal será ela ou sou eu?" 
[clara nunes]



samba,
zabumba,
batuca teu mar...
bole tua terra que remexe de sal o sorriso embriagado de suor.

ginga o batuque da morena só pra acabrunhar a lua 

que assistiu um vá-pra-lá-e-pra-cá da cintura,

 brincadeira  boa de alunissar.

cadencia no peito a promessa 

e no gingado de balanço leva  sonho pra longe. 

emana a luz nesse molejo pra alumiar de esperança a terra 

porque na  dança de batida  bumbo, 
tantos sorrisos se abrem em braços 
 largos.

carrega o estandarte da alegria pra abençoar a gente do mundo

e bora zabumbar o mar...

bora batucar o samba...

que no sal de suor a terra também borlole sorrindo,

ginga a lua acrabunhada da morena de batuque

e a cintura remexe cá-pra-lá-pra-cá

alunissando assim a boa brincadeira.

acelera o peito com a conquista trazendo no balanço a ginga de realidade
bem vinda...

firma a esperança na terra pra espantar o escuro com molejo

porque se no bumbo a batida da dança brinca

é no abraço do xote que o sorriso silencia

emudecido de alegria dessa gente abençoada de vida

que samba, 
zabumba,
 batuca...











felicidade também bate a porta



 
"você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.
melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você."[marcelo jeneci]






[pic by bneubern]



 
até a felicidade bate a porta quando sucessivas vezes vê seu bom convite negado.
do lado de lá o temor do ósseo típico de quem somente na guerra encontra qualquer ofício flagrantemente impera.
tanta dor a impulsionar a fraca inspiração acaba por engessar toda sorte de vida que aos poucos se esvai com a terra seca.
se somos feito para acabar, a nós ao menos  cabe a escolha dos passos. 
se assim não fosse, teríamos nós a voz calada pelo silêncio dos poetas que perderam suas letras num grito de vitória democrático.
os tais  que acenam negativamente para a libertação, como se esta fosse a grande vilã de toda história, deixam em si marchar sangue venoso  na tentativa covarde de verem reinventada a doce ditadura.
"quem nos diz então da pergunta que emudece o coração?"
por serem tantas as dores e alegrias, não cabe num único querer a certeza do impossível, nem tão pouco o conformismo de quem deixa a felicidade bater a porta. 
para isso temos os pés...
impedem o fechamento quando se posicionam entre o querer e o conseguir, 
este é efetivamente o passo a ser tomado.






em certa ocasião escutei o conto do homem que tinha um rabo. 
inicialmente pensara ser furúnculo, uma espinha, um cabelo encravado, mas não...
era efetivamente um rabo. 
sofria com as possíveis perseguições que viriam, possíveis zombarias e eram tantas possibilidades que ele mesmo se fechava e não permitia qualquer aproximação. 
da mesma forma experimentou o espanto de sua esposa ao perceber que era par de um homem com um rabo. 
não conseguia entender seu triste "destino" traçado  pela aparente anomalia que crescia com o passar do tempo.
inicialmente enrolou em volta do próprio corpo tentando escondê-lo, assim ao passo que escondia seu rabo parecia mais gordo...
mas o homem não era gordo.
conforme os dias passavam percebia que nada podia ser feito, então contava com a ajuda da esposa, ótima costureira por sinal, para preparar o modelo de calça mais adequado à situação.
com o tempo o grande vilão rabo tornou-se também um grande companheiro... 
abria a geladeira, 
apagava a luz, 
buscava o controle da televisão 
e até balançava animado com a felicidade de seu dono.
todos que conviviam com o homem do rabo já estavam habituados com aparente anomalia e em verdade o rabo, inicialmente vilão, era também a diferença que atraia curiosos e revelava alguns novos amigos.
o homem do rabo sempre racional e se permitindo à felicidade mesmo com a  tal anomalia, pensava pragmaticamente que a natureza assim decidirá por dar a ele a oportunidade de se sentir único, especial. 
esses desdobramentos práticos do rabo levaram o homem a praticar o pensamento conclusivo em muitos setores de sua vida, foi assim que o mesmo destino traçado pela história de um rabo revelou novos amigos, tornou um homem comum especial por saber ser diferente e permitiu manter aberta a porta da felicidade. 
a única coisa que perturbava vez ou outra a tranquilidade do homem do rabo era o jogo de futebol com os amigos no fim da semana... 
afinal o goleiro do time tem sempre muita responsabilidade. 
[baseado no conto "o rabo" de andré cantú]