felicidade também bate a porta



 
"você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.
melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você."[marcelo jeneci]






[pic by bneubern]



 
até a felicidade bate a porta quando sucessivas vezes vê seu bom convite negado.
do lado de lá o temor do ósseo típico de quem somente na guerra encontra qualquer ofício flagrantemente impera.
tanta dor a impulsionar a fraca inspiração acaba por engessar toda sorte de vida que aos poucos se esvai com a terra seca.
se somos feito para acabar, a nós ao menos  cabe a escolha dos passos. 
se assim não fosse, teríamos nós a voz calada pelo silêncio dos poetas que perderam suas letras num grito de vitória democrático.
os tais  que acenam negativamente para a libertação, como se esta fosse a grande vilã de toda história, deixam em si marchar sangue venoso  na tentativa covarde de verem reinventada a doce ditadura.
"quem nos diz então da pergunta que emudece o coração?"
por serem tantas as dores e alegrias, não cabe num único querer a certeza do impossível, nem tão pouco o conformismo de quem deixa a felicidade bater a porta. 
para isso temos os pés...
impedem o fechamento quando se posicionam entre o querer e o conseguir, 
este é efetivamente o passo a ser tomado.






em certa ocasião escutei o conto do homem que tinha um rabo. 
inicialmente pensara ser furúnculo, uma espinha, um cabelo encravado, mas não...
era efetivamente um rabo. 
sofria com as possíveis perseguições que viriam, possíveis zombarias e eram tantas possibilidades que ele mesmo se fechava e não permitia qualquer aproximação. 
da mesma forma experimentou o espanto de sua esposa ao perceber que era par de um homem com um rabo. 
não conseguia entender seu triste "destino" traçado  pela aparente anomalia que crescia com o passar do tempo.
inicialmente enrolou em volta do próprio corpo tentando escondê-lo, assim ao passo que escondia seu rabo parecia mais gordo...
mas o homem não era gordo.
conforme os dias passavam percebia que nada podia ser feito, então contava com a ajuda da esposa, ótima costureira por sinal, para preparar o modelo de calça mais adequado à situação.
com o tempo o grande vilão rabo tornou-se também um grande companheiro... 
abria a geladeira, 
apagava a luz, 
buscava o controle da televisão 
e até balançava animado com a felicidade de seu dono.
todos que conviviam com o homem do rabo já estavam habituados com aparente anomalia e em verdade o rabo, inicialmente vilão, era também a diferença que atraia curiosos e revelava alguns novos amigos.
o homem do rabo sempre racional e se permitindo à felicidade mesmo com a  tal anomalia, pensava pragmaticamente que a natureza assim decidirá por dar a ele a oportunidade de se sentir único, especial. 
esses desdobramentos práticos do rabo levaram o homem a praticar o pensamento conclusivo em muitos setores de sua vida, foi assim que o mesmo destino traçado pela história de um rabo revelou novos amigos, tornou um homem comum especial por saber ser diferente e permitiu manter aberta a porta da felicidade. 
a única coisa que perturbava vez ou outra a tranquilidade do homem do rabo era o jogo de futebol com os amigos no fim da semana... 
afinal o goleiro do time tem sempre muita responsabilidade. 
[baseado no conto "o rabo" de andré cantú]